A literatura salva vidas, por Luísa Kehl

2 de novembro de 2014
Foto: WeHeartIt
   Vocês sabem bem como, às vezes, os textos nos leem. Sim, ao invés de lermos um texto, alguns simplesmente parecem nos decifrar inteiros e revelar em cada palavra as nossas vidas. Nos identificamos tanto com coisas que lemos que, parecem escritas por nós mesmos. Mas não foram.
   Acontece bastante comigo quando estou no Tumblr. Leio alguma coisa e sinto como se a minha história estivesse sendo contada por alguém, e textos como estes nós não podemos simplesmente deixar de registrar. Por isso vou dividir com vocês hoje um texto da Luísa Kehl, que eu econtrei no tumblr, que fala sobre a literatura e a vida de uma leitora assídua. Que é o meu caso. Veja:

Ninguém quer namorar alguém que leia muito, que veja além da superfície de singelos versos. As pessoas que têm o habito da leitura são consideras pessoas a parte, como se fossem de uma dimensão diferente. Talvez sejam, digo por mim. Desde pequena vivi cercada de histórias de feiticeiros, guerras transcendentais, seres místicos, facetas do fim do mundo, Hitler e Olga, as grandes guerras mundiais, as poesias de Fernanda Pessoa e os contos de Machado de Assis. Embarquei no mundo da literatura muito cedo, descobri o que me cerca a partir dos nuances de páginas de livros e reportagens ignoradas de jornais. E fui me tornando meio alheia a todo resto. Quanto mais conhecimento você vai retirando das palavras mais o mundo lá fora parece mesquinho e pequeno. Quem sabe essa é a razão de eu ser assim tão voltada para as minhas próprias facecias, as coisas ao meu redor se resumem aos marcadores de página e sessões de biblioteca. Se você aparecer por aqui algum dia irá encontrar pilhas de livros na estante acima da minha cama e mais outra ao lado do meu travesseiro. No banheiro sempre há livros didáticos com assuntos que hoje são considerados polêmicos, como essa ridícula guerra das Coreias que está acontecendo atualmente. As pessoas acham que o desperdício de vida é algo a considerar em nome do bem maior. Ridículo. Sempre carrego dentro da bolsa algum livro que tenho imensa vontade de ler, mas nunca consigo. Parece que essa presença constante da literatura ao meu lado é o que me faz sentir em casa. A leitura me proporciona isso, a sensação que eu não estou sozinha no mundo, largada em uma viela qualquer em mundo egocêntrico e extremamente individualista. Eu me sinto acolhida. É como se autores reservassem um lugar só pra mim em meios as aventuras dos personagens e suas indescritíveis jornadas, como se sem a minha presença tudo desse errado para eles. Ao menos nos livros eu tenho um papel significativo, um cargo elevado, uma importância que pra eles não pode ser traída ou subjugada; nossa relação é mutua: compreensão e respeito. Diga-me agora você, em algum trecho de algum livro que tenha lido não sentiu como se o universo todo estivesse te olhando esperando para ver a sua reação diante de meras palavras que parecem ter sido tiradas do seu ser e traduzida em palavras? Eu sinto isso o tempo todo. E talvez seja tão solitária. As pessoas lá fora estão pouco se importando com seus sentimentos, a ignorância chega a ser tão grande que tirar a própria vida é motivo de piada alheia, depreciação da alma. É por isso que vou ficando cada vez mais em casa. Não faço questão de frequentar bares, conversar assuntos superficiais com pessoas mais supérfluas ainda, ser social com aqueles que nem tem coragem de olhar nos seus olhos. As pessoas são tão podres e voltadas para o seu próprio umbigo, que quando sou empurrada para um evento social cheio desses tipinhos, puxo aquele meu livreco que aparentemente está esquecido na minha bolsa e arranjo um canto qualquer para mergulhar entre versos e parassínteses. A literatura não tem hora, não te exige que cumpra tabelas, não te coloca contra a parede, não tem um lugar ou um momento predestinado. Ela simplesmente ocorre, em uma esquina ou dentro de um ônibus lotado. A única coisa que ela quer é você seja inteiro enquanto estiver com ela. E nunca a decepcione nesse sentindo. Ela sabe quando me sinto quando entro em um sebo e sinto aquele cheiro de livro antigo, tanta coisa para ser descoberta, adentrada. Quando entro na livraria e vejo as estantes cheias de livros novos para serem desvendados. Quando pego e releio um livro pela décima vez sem me importar ao constar que sei a história de cor. Eu me entrego totalmente a ela quando pego um livro novo na mão e percorro com os dedos a capa e contorno das ilustrações. Abro e leio a data da publicação e nome dos editores e esqueço meu próprio nome quando ela pega pela mão e me convida para adentrar um novo mundo. Quem faria o mesmo com você? Quem tem essa paciência para esperar que você se doe? De quem você pode dizer que pode ligar a qualquer hora que a pessoa vai estar disponível? Quem tem tanta atenção e dá tanta importância para o que você está sentindo? Quem tem essa ânsia toda para estar ao seu lado? Talvez eu esteja sendo um pouco radical, confesso. Mas sinceramente? Não sei se isso é tão ruim quando as pessoas imaginam ser. Agora se você me perguntar como me viro bem assim sozinha, mesmo que às vezes pareça tresloucada e insana, já sabe a resposta. Agora dá licença que eu tenho guerras para vencer e donzelas para salvar.

   Você pode ver o tumblr dela clicando aqui e conhecer mais coisas das quais ela escreve. 

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